sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Margem látero-inferior do tálus

Hoje resolvi falar sobre meu pé. Poucos sabem de verdade o que aconteceu e a gravidade do ocorrido daquele fatídico dia de Festival de Jogos. Peguei alguns exames hoje e percebi que realmente vai demorar muito mais do que eu imaginava para resolver tudo isso. Mas é bom começar a história do começo né? (Preparem-se pois a história será looonga).

Era uma vez uma menina (eu) que vivia com dor de garganta (sim, o problema é no pé, mas tudo começou na garganta). Além disso era muito teimosa, e mesmo ainda tratando da sua última forte infecção, tomando analgésicos e antibióticos, ela resolveu ir ao último Festival de Jogos da sua escola. Seu pai fizera de tudo para que ela não fosse, tentou argumentar, pedir, até se atrasou, com esperanças de que ela perdesse o ônibus que a levaria para o clube Belo Horizonte, localizado do outro lado da cidade. Não deu certo, ela queria porque queria ir, e acabou indo. Como não conseguira convencer a filha, resolveu pelo menos dar algumas ordens: "Ok Lara, você vai, mas você não vai jogar nada. Ouviu? NADA!", "Sim papai".

Corrida. Ela não podia deixar de correr, não era a mais rápida, mas era uma esperança para a turma, afinal, na última competição ela tinha conseguido uma diferença de uma volta das outras equipes [*modéstia mode off*]. Seria a terceira a correr, trocara de tênis, colocara seu velho e furado Mizuno, mas era com ele que sempre corria. Alongara, se preparara bem. Recebeu o bastão, e resolveu disparar. Só resolveu, pois perdeu o equilíbrio e foi de cara no chão. Tentou tirar da cabeça a vergonha de ter caido dessa forma (espetacular) na frente de TODO o terceiro ano, levantou e continuou correndo. Mas agora não adiantava mais, já estavam em último, e não conseguiriam de forma alguma recuperar a vantagem que tinham perdido. Saiu de lá desolada: seu melhor esporte, e conseguira estragar tudo, a turma deveria odiá-la nesse momento. E ainda por cima tinha os joelhos sangrando, a calça furada e as mãos raladas. Enfermaria.

Seguir em frente, ainda tinha um dia inteiro de jogos pela frente, certo? Errado. Foi ao banheiro, trocou de calça, se preparou, tinha o jogo de futebol, poderia se redimir com a turma se jogasse bem e conseguisse uma vitória. Nunca jogou com tanta raça. Mesmo sem saber jogar muito bem, ia atrás da bola, tentava driblar as adversárias, e sem sucesso tentou fazer alguns gols. Logo no começo do jogo, estavam perdendo de um a zero, alguém de seu time toca para ela, e ela, com toda a raça que tinha, corre (como deveria ter corrido antes), não podia deixar com que a bola saisse pela lateral, mas percebe que já não adiantava mais, não alcançaria a bola. Tentou desesperadamente frear, tinha um muro na sua frente, mas ela estava correndo tão rápido que era quase impossivel parar antes do muro. Dessa vez pensou, (coisa que não fizera onze anos antes, quando preferiu ir de boca no chão à quebrar os braços freando a queda, resultado: ficou sem dentes), e resolveu parar com o pé. De início, pensou que tivesse apenas torcido, como sempre acontece, "ele dobrou um pouquinho mais para cima, distendeu alguma coisa, daqui a pouco essa dor passa", ainda segurando as grades com as mãos, sentido uma pequena ardência no nariz, e nem pensando em movimentar seu pé, chega a juíza. "Você está bem?", ela balança a cabeça negativamente, "Está doendo muito?", agora o movimento foi afirmando, "Vai continuar na partida?", "CISSAA! Entra no meu lugar!", "Consegue andar?", "Não". Enfermaria, novamente, dessa vez foi carregada, gerando comentários de como era fresca e aparecida. "Não parece nada de mais, está um pouco inchado, deve ter sido uma pequena torção, vou colocar um gelo e enfaixar, certo?" ela concordou, disse que doía quando tentava movimentar, mas acreditou na enfermeira. "Enquanto você está com o gelo, vou limpar seu nariz", "Está sujo? Eu raspei na grade", "Está sangrando", ela assusta, mas imagina um pequeno corte, como realmente foi. Sai de lá enfaixada, precisa de ajuda para subir as escadas, não conseguia colocar o pé no chão de forma alguma. Ela senta na arquibancada e resolve passar o resto do dia lá, ou pelo menos até seu pé melhorar. Resolve ir ao banheiro, e se arrepende completamente de ter levantado, uma dor descomunal quando ela sem querer vira um pouco o pé. Já se decidiu, vai para o hospital. Chama os professores, liga para o pai, combinam de se encontrarem na emergência.

Saiu carregada, novamente, e infelizmente o professor que a levará para o hospital é o que ela mais odeia, paciência. Uma hora no carro com dois professores, um pé doendo, e a preocupação com a reação de seu pai, ela viveu momentos tensos. "Ah, deve estar tudo bem, você está muito calma, nem chorou. Da vez que eu quebrei meu pé, eu adimito, eu chorei", como se não bastasse todas as suas preocupações, ela ainda tem que aturar a conversa dos seus professores, e principalmente o fato deles acreditarem que era só fricote dela. Hospital, cadeira de rodas, filas, radiografias, suspeitas, tomografias, resultados, gesso! Não sei como que ela com aquela dor conseguira ficar feliz, se pudesse teria pulado de tanta felicidade. Era seu sonho de criança quebrar alguma coisa, colocar gesso. Chegou um pouco atrasado, não era mais criança, mas ainda estava em tempo.

Foi uma época divertida, fez com que a turma inteira ficasse em sala fixa, mas estava gostando disso. Nunca tivera uma turma como aquela, as suas antigas do ensino médio não lhe agradavam, e essa turma, apesar de tudo, era boa. Fez novas amizades, conheceu novas pessoas, a maioria deles a tratava bem, afinal, ela andava de muletas, estava engessada. O tempo foi passando, seu pé doía freqüentemente, mas acreditava que em um mês estaria boa, como dissera o médico. Tirou o gesso, mas continuou de muletas, começou a andar antes do permitido. Era teimosa e estava cansada de ser dependente para tudo.

Bem, fez fisioterapia, poucas melhoras, ela continuava mancando. Seu pé continuava a doer, mas ela já tinha se acostumado com essa dor; quando pisava de um jeito diferente, ai sim era problema para ela. O vestibular fez com que ela parasse de ir à fisioterapia, não tinha tempo para isso, e ela andava mais, corria mais de um lado para o outro. E tudo ia piorando. Seu medo de ter que operar ficava cada vez maior, afinal, as chances de uma cirurgia iam crescendo com a não melhora do pé. Ela começava a ficar preocupada, tinha esmagado a articulação de um osso importante do pé: o tálus, um osso pouco irrigado, que era revestido de cartilagem e que é o centro de equilibrio do corpo, ele que liga os ossos da perna aos ossos do pé. Ouviu com preocupação quando o ortopedista havia dito que era melhor estilhaçar o osso no meio a que ter uma trinca na articulação. Ela esmagou a articulação.

Às vezes tenho a impressão de que é a história de uma outra pessoa, queria isso. Mas tenho que aceitar, meu pé É problemático. Tem quase quatro meses que eu não corro. Quase quatro meses que eu não ando sem sentir dor, que eu não pense antes de fazer as coisas por causa do meu pé. E o pavor de uma cirurgia ainda assombra, não tenho tido melhora. Consultei outro ortopedista, ele me pediu exames, novas tomografias. Fiz, e busquei hoje. As imagens me assustaram, são incríveis. Coisas que você só ve no Discovery Channel. Mas não foi só isso que me assustou, as setas, os significados. O diagnóstico.

Isso é uma Tomografia Computadorizada Multislice do Retro-pé Esquerdo [Saúde]. Não sei o que significa multislice, nem sabia da existência de um retro-pé. Só sei que as imagens são muito legais, e seriam mais ainda se não fossem do MEU retro-pé esquerdo.

A técinica do exame: Estudo tomográfico computadorizado multislice (ainda procuro essa palavra no Aurélio) do pé esquerdo (não era retro-pé?), realizado em aparelho de 16 canais (sacanagem, pois não me deixaram ver nenhum. OK, chega de piadinhas sem graça), com aquisição volumétrica das imagens no plano axial, orientados por radiografia digital, sem a infusão endovenosa (graças a deus) de meio de contraste. Foram realizadas recontruções nos planos sagital, coronal e 3D.

Os seguintes aspectos foram observados: Presença de pequena linha de solução de continuidade, correspondendo a fratura não consolidada (4 meses depois, e isso continua quebrado), visibilizada na margem látero-inferior do tálus, sem desalinhamento importante do fragmento ósseo em contiguidade.

O resto não importa, é bla bla bla dizendo que fora isso, está tudo ok com meu pé. Não entendi bulhufas dessas palavras e termos científicos. Graças à deus não faço bi[t]ológicas. Utilizei-me de pequenas lembranças da matéria do Marcelo desse ano: cartilagem não se regenera. Isso não é bom, já que quebrei um osso todo coberto por cartilagem. A fratura não foi consolidada. Quatro meses, e meu pé continua quebrado. Como resolver isso, não sei. Ainda não levei-a ao ortopedista. Mas toda essa confusão de multislice, retro-pé, etc, pode ser traduzida em poucas palavras: meu pé está fodido. Está cada vez mais claro para mim que ele ainda vai me dar muito trabalho.
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OBS.: mesmo não tendo nada a ver com o tópico, uma notícia precisa ser dada: eu PASSEI! Tipo, eu já sabia que ia passar, mas ver meu nome na lista de aprovados para a segunda etapa, foi algo muito emocionante! o/

4 comentários:

Anônimo disse...

(comentário de cecília:) e eu que li.
e eu que nunca vi isso em Discovery Channel.

minhas condolências Lara.

Anônimo disse...

ELAMAY as fotos, beijosmeliga.

vou ler tudo depois, aí eu comento direitinho...



quando você vem pra contar a história do hélou-hélou josias e sua família cujos membros tinham os nomes iniciados com J, e ouvir a história do cara do McDonald's?

Rafael Ramalho disse...

Só pra tirar suas duvida.. heheheh

Multislice é uma técnica usada para obter maior volume de imagens radiográficas com menos uso de radiação ionizante, os 18 canias que vc nao pode ver nenhum, são detectores de radiação que tranformam a radiação que atinge eles, após atarvessar vc, em imagem.

Retropé se refere à parte "de trás" do pé, assim como antepé seria a parte da frente(dedos do pé ou quirodátilos).

Depois desse tempo todo espero ter tirado a cruel duvida sua e que tenhas consolidado essa fratura.

Até mais...

Unknown disse...

oi lara, meu nome e Fernanda, e a dois anos atras, quebrei o talus tambem, e eu sei a dor que vc sentiu, doi de mais msm... mais graças a deus hoje, ando normalmente, de vez em quando doi um pouco, mais naum importa, so de estar andando novamente...
melhora pra voce, ta bjos.